Num tempo em que os grandes festivais de
arte contemporânea se desdobram em estruturas mastodônticas e espetaculares, o
Festival Fonlad (Festival Online de Artes Digitais) propõe, desde 2005, uma
alternativa íntima, radicalmente comprometida com as margens — não como
periferia geográfica ou cultural, mas como espaço de insurgência estética e
política. Organizado pela Associação Videolab, o Fonlad nasceu num contexto
académico e artístico específico, mas rapidamente se projetou para uma dimensão
internacional, ao mesmo tempo silenciosa e resistente, como um código que
circula subterraneamente entre artistas, curadores e públicos atentos às
linguagens menos consensuais da arte.
O Fonlad não é um festival comum. A sua
origem enquanto festival online — numa altura em que o mundo artístico ainda
hesitava diante do virtual — constitui um gesto inaugural de ousadia. Quando
quase ninguém acreditava nas potencialidades curatoriais da internet, o Fonlad
construiu uma plataforma de acolhimento para práticas artísticas digitais, num
gesto de descentralização da arte, propondo-se como ponto de encontro de
comunidades dispersas e linguagens em trânsito. Se hoje muitos festivais
reivindicam o digital como território fértil, o Fonlad fê-lo há duas décadas,
com uma lucidez visionária que importa reconhecer.
Porém, o seu crescimento não seguiu a
lógica da expansão territorial nem da espetacularização. O Fonlad preferiu
crescer em profundidade: aprofundando relações com artistas, consolidando
parcerias com festivais irmãos (como Magmart em Itália, Miden na Grécia,
Proyector em Espanha, Cologne OFF na Alemanha, ou Strangloscope no Brasil) e
ampliando os horizontes do que se entende por vídeo arte, performance digital
ou instalação multimédia. Ao invés de colecionar nomes sonantes, o festival
concentrou-se em promover zonas de fricção criativa — onde a arte experimental
pudesse respirar, livre das pressões do mercado e dos cânones museológicos.
A ligação ao território é também parte
fundamental da sua identidade. Com sede em Coimbra, uma cidade marcada por uma
herança universitária que oscila entre o conservadorismo e a experimentação, o
Fonlad estabeleceu um diálogo ativo com diversos espaços culturais da cidade: a
Casa da Esquina, o Centro Cultural Penedo da Saudade, o Museu da Água, o
Convento de S. Francisco, a Oficina Municipal do Teatro, entre outros. Esses
locais tornaram-se palcos de encontros transdisciplinares onde a vídeo arte
convive com a performance, a literatura com a instalação, a dança com o som. Em
alguns casos, o espaço expositivo transforma-se num corpo ativo: um organismo
vivo que absorve as ações dos artistas e se deixa contaminar pelos seus gestos.
Importa sublinhar que o festival nunca se
isolou numa lógica de nicho. Através de oficinas, sessões escolares,
residências artísticas e colaborações intergeracionais, o Fonlad foi também um
dispositivo pedagógico, promovendo um acesso crítico e sensível à arte
contemporânea. A criação do iFIVE – Festival Internacional de Vídeo Escolar, em
parceria com várias escolas de Coimbra, exemplifica essa vontade de cultivar
novos olhares desde cedo, inserindo a prática da vídeo arte no quotidiano
escolar, não como mera extensão curricular, mas como gesto criador autónomo.
A curadoria, frequentemente assumida por
José Vieira e Sérgio Gomes — duas figuras indissociáveis da génese e
crescimento do projeto — nunca se rendeu ao óbvio. A sua escolha de artistas e
obras revela um cuidado meticuloso na construção de narrativas visuais e
conceptuais. O festival tanto acolhe artistas emergentes como nomes
reconhecidos no circuito internacional, mas fá-lo sempre a partir de um
critério de pertinência estética e ética. A atenção ao detalhe, à
experimentação formal, à ousadia do gesto, são marcas constantes das seleções
anuais.
Ao longo dos anos, o Fonlad acolheu
centenas de artistas oriundos de todos os continentes. Em edições anteriores,
podemos encontrar obras de autores como Francesca Fini, Francesca Leoni, David
Burns, Carla Forte, Angella Conte, Márcia Beatriz Granero, Vijay Araghavan,
Mario Gutiérrez Cru, entre muitos outros. Os temas abordados cruzam questões de
identidade, território, memória, género, política, corpo e virtualidade — mas
mais do que representar o mundo, os trabalhos apresentados tendem a
desestabilizá-lo, a interrogá-lo, a refazer os seus contornos simbólicos.
Um exemplo eloquente da força poética e
política do festival foi a performance “Faixa de Gaze” (2023), concebida a
partir do conto “A Flor”, de António Amaral Tavares. Aqui, a fragilidade do
habitar foi traduzida visual e materialmente através da gaze — tecido efémero e
simbólico — em clara alusão à Faixa de Gaza, território marcado por uma
existência constantemente ameaçada. O gesto artístico, neste caso, torna-se
simultaneamente denúncia e cuidado, memória e ação. É esse tipo de densidade
simbólica que distingue o Fonlad de outros festivais que muitas vezes se
limitam à exibição de obras sem contexto ou sem pensamento crítico.
Outro aspeto distintivo do Fonlad é a sua
constante reinvenção formal. Em vez de se cristalizar num modelo expositivo
estático, o festival explora continuamente novas possibilidades de
apresentação: projeções ao ar livre, instalações site-specific, eventos
híbridos, mostras online, intervenções performativas. Essa plasticidade formal
reflete a própria natureza do vídeo enquanto meio artístico em mutação
permanente — ora imagem em movimento, ora corpo expandido, ora som visual.
Com o tempo, o Fonlad tornou-se um espaço
de convergência internacional, com artistas de países tão distintos como Japão,
Canadá, Israel, Argentina, Finlândia, Brasil ou Austrália. Esta dimensão
global, no entanto, não desvirtua a sua identidade local. Pelo contrário: é
precisamente pela sua inserção num território específico, com as suas
idiossincrasias e tensões, que o festival pode dialogar de forma relevante com o
mundo. A internacionalização do Fonlad não resulta de uma ambição cosmopolita
abstrata, mas da coerência de um percurso artístico profundamente enraizado no
presente.
A ligação ao corpo — e à sua representação,
transformação e ficcionalização — é outra linha contínua na história do
festival. Projetos como “Lilith Vai Para Todo o Lado” ou “Momentum” (em
parceria com o Convento São Francisco) demonstram a centralidade da performance
como linguagem de fronteira, onde o vídeo deixa de ser apenas registo e se
torna extensão do gesto, pele translúcida da ação. Essa relação com o corpo é,
ao mesmo tempo, uma exploração da presença e da ausência — temas que ganham
especial relevo em tempos de hiperconectividade e isolamento digital.
Ao integrar o Fonlad na programação da
Associação Videolab, reconhece-se o seu papel enquanto vértice de um projeto
cultural mais amplo, que ao longo dos anos se desdobrou em exposições,
residências, formações, publicações e ações comunitárias. A Videolab não é
apenas uma entidade organizadora, mas um verdadeiro laboratório de criação e
reflexão sobre a imagem, o som e o corpo. O Fonlad, nesse contexto, funciona
como espelho e motor — revelando o que de mais inquietante e vibrante se faz na
arte digital contemporânea.
Hoje, ao olhar para trás, não se pode
deixar de reconhecer o contributo do Fonlad para a legitimação e difusão da
vídeo arte em Portugal. Num país onde o experimentalismo audiovisual permanece
frequentemente à margem dos grandes circuitos institucionais, o festival abriu
espaço para artistas, obras e públicos que de outro modo teriam permanecido
invisíveis. Mas mais do que isso: criou uma comunidade. Uma comunidade de
criadores, espectadores, cúmplices, onde a arte não é apenas exibida, mas
discutida, tocada, vivida.
O Fonlad é, em última análise, um espaço de
resistência. Não uma resistência passiva ou nostálgica, mas uma forma ativa de
ocupar o tempo e o espaço com gestos criativos que desorganizam o mundo para o
reconfigurar. Numa época em que o algoritmo dita o gosto e a atenção é
mercadoria, o festival insiste no olhar lento, na escuta atenta, na experiência
partilhada. E talvez seja essa a sua maior conquista: provar que ainda é
possível fazer arte fora dos centros, à margem dos modelos dominantes, e ainda
assim (ou precisamente por isso) tocar o essencial.
PROGRAMA
1
- 5 JUNHO,
15h00 – 18h00
Curso de Formação em Video Arte e Performance
Com José Vieira e Sérgio Gomes
Centro Cultural Penedo da Saudade
1
- 31 JULHO,
14h00 – 18h00, de terça a domingo
Mostra de Vídeo Arte Internacional:
Festivais InShadow (Pt), Fonlad (Pt), Miden
(Gr), Magmart (It) e Proyector (Es)
Centro Cultural Penedo da Saudade
3 - 8 JULHO, 15h00 – 18h00
Residências artísticas de:
Mario Gutiérrez Cru & LARQuicios (Es),
Pedro Sena Nunes (Pt), Coletivo Videolab (Pt)
Centro Cultural Penedo da Saudade
4 JULHO, 18h00
Concerto c/ LARQuicios (Es)
Audiovisuais de Mario Gutiérrez Cru (Es)
Centro Cultural Penedo da Saudade
8 - 31 JULHO, 14h00 – 18h00,
de terça a domingo
Mostra dos projetos de residência
Mario Gutiérrez Cru & LARQuicios (Es),
Pedro Sena Nunes (Pt), Coletivo Videolab (Pt)
Centro Cultural Penedo da Saudade
11 JULHO, 18h00
Concerto c/ Pespakova
Centro Cultural Penedo da Saudade
18 JULHO, 18h00
“Os iniciados”, conversa / performance com José
Vieira
Centro Cultural Penedo da Saudade
25 JULHO, 18h00
“Poetri in the Bothle”, performance pelo grupo Criolagens
Estéticas
Apresentação de Livro LUA
Centro Cultural Penedo da Saudade
31 JULHO, 18h00
“The Last Dance”, dança por Maria do Mar
Apresentação de Livro FONLAD 20 Anos
Centro Cultural Penedo da Saudade
Direção artística:
Sérgio Gomes, José Vieira
Artistas convidados:
Mario Gutiérrez Cru & L.A.R.Quicios (Es), Pedro Sena Nunes (Pt),
Comissários convidados: Enrico Tomaselli (It),
Gioula Papadopoulou (Gr), Mario Gutiérrez Cru (Es), Pedro Sena Nunes (Pt)
Festivais parceiros:
InShadow (Pt), Magmart (It), Miden (Gr), Proyector (Es)
Parceria: Centro Cultural Penedo da Saudade
Apoio: Câmara Municipal de Coimbra